Lembranças Rio das Pedras: O dia em que Rio das Pedras não deixou o governador dormir
- Fernanda Calé

- 7 de mai.
- 4 min de leitura

Como a mobilização de cerca de noventa famílias garantiu o direito à moradia e salvou o futuro daquela que se tornaria a segunda maior favela do Rio de Janeiro.
Por: Fernanda Calé e Leonardo Soares
Em junho de 1966 cerca de noventa famílias de lavradores que compunham o núcleo de ocupação inicial da comunidade estavam sob ameaça de remoção. Essa ação poderia mudar para sempre a região que conhecemos hoje, mas a resistência dos moradores mudou completamente o futuro e garantiu a continuidade daquela que veio a se tornar a segunda maior favela do Rio de Janeiro.
O ano de 1966 trouxe muitos desafios para os moradores de Rio das Pedras, em um momento de expansão territorial e populacional da região, os moradores precisaram enfrentar ações judiciais de proprietários que haviam adquirido posses no local nos anos de 1940 e 1950, e desejavam valorizar suas propriedades.
Essas ‘figuras’ recorreram à justiça para fazer valer seus “direitos” de senhores possuidores da área “invadida”, o que na prática significava a tentativa de despejo dos pequenos lavradores que se estabeleceram naquela região.
Esses primeiros habitantes de Rio das Pedras, construíram habitações humildes de madeira e plantavam laranja, aipim, coco, milho, cana-de-açúcar e banana. Mesmo quando a agricultura não era suficiente para o sustento das famílias, eles recorriam à generosa oferta de peixes da Lagoa de Jacarepaguá, localizada muito próxima a comunidade.
Os pretensos proprietários, em sua maioria profissionais liberais - alguns deles advogados e arquitetos - eram donos de companhias imobiliárias e sócios em várias empresas como bancos, seguradoras, mineradoras, siderúrgicas e tinham outros planos para aquelas terras que, na visão desse grupo, deveriam existir para dar lucro, sob a forma de loteamentos urbanos, mas para isso, a área precisava ser esvaziada de qualquer ocupação.
Em abril de 1966, ocorreria a primeira tentativa de despejo de cerca de 92 famílias. A I Vara da Justiça do Rio havia acatado o pedido da Granja Rio das Pedras e do advogado Dalmo Esteves de Almeida que representava esta organização. O pedido de reintegração por parte dos supostos donos havia sido protocolado em 1963.
Os moradores de Rio das Pedras já tinham conhecimento dessa iniciativa e de certa forma foram se preparando para a eventualidade de terem que resistir à sua expulsão daquelas terras. Os jornais da época se referiam a população local como “lavradores” e contavam sobre o movimento de mobilização que pretendia impedir a remoção das famílias:
“Rio das Pedras não dorme para garantir suas terras. Os moradores de Rio das Pedras passaram mais uma madrugada de vigília para defender o caminho que liga a Estrada de Jacarepaguá ao centro da localidade, embora descrentes de uma atitude do governador Negrão de Lima no sentido de fazer a desapropriação da área medida que lhes permitiria continuar cultivando as glebas [lotes de terra].”

Nesse primeiro momento, a resistência dos moradores surtiu efeito, gerando a decretação da suspensão temporária da ordem de despejo. Os moradores comemoram, chegaram até a cogitar a realização de um churrasco para celebrar a vitória obtida. Mas seguiram mantendo a vigilância.
Menos de dois meses após a suspensão da ordem de despejo, em junho de 1966, a I Vara voltaria a autorizar o despejo. No dia 20 de junho os oficiais compareceram à área de litígio para executar a ordem de despejo de cerca de mil pessoas, com forte aparato policial e com vários funcionários do governo munidos de picaretas e martelos para pôr abaixo as dezenas de casas que ocupavam os terrenos. Apenas cerca de 20 casas permaneceram de pé, salvas pela interrupção dos trabalhos com o fim do dia se aproximando.
Os moradores desalojados não saíram da comunidade e montaram um acampamento provisório nos limites da comunidade. Percebendo que o momento exigia medidas mais importantes, os moradores tiveram a ideia de realizar um protesto junto ao governador Negrão de Lima. Eles já haviam realizado um movimento anterior no Palácio Guanabara que não havia surtido o efeito desejado. Desta vez os moradores decidiram realizar uma vigília na residência oficial do governador, localizada às margens da Lagoa Rodrigo de Freitas.
No dia 21 de junho de 1966, cerca de 200 moradores chegaram à residência do governador por meio de ônibus fretados. Assim detalha a edição do jornal Correio da Manhã do dia 22 de junho: “A visita ao governador foi decidida anteontem [...] Em ônibus fretado pela associação de moradores, cerca de duzentas pessoas rumaram de Jacarepaguá para a Lagoa, chegando em casa do governador de madrugada” (p. 8).
Ao chegar no local, foram recebidos pelo governador Negrão de Lima, que muito surpreso tentou controlar a situação prometendo viabilizar uma solução para a questão das terras, declarando que a “situação seria resolvida da melhor maneira possível”. Para isso, Negão de Lima mobilizou várias secretarias de governo para que pensassem em medidas efetivas. O governador afirmou que mandaria suspender a ordem de despejo e satisfeitos com o encaminhamento, os moradores retornaram para Rio das Pedras.
Negão de Lima cumpriu com a palavra, a ordem de despejo foi suspensa e vários secretários e técnicos de várias pastas foram mobilizados para organizar estudos sobre a localidade. As principais secretarias que passaram a atuar ali foram da economia e agricultura. Esta, numa rápida visita constatou que a região era dominada por atividades agrícolas. O que fundamentou a decisão daquela em iniciar um estudo com vistas a desapropriação da área reivindicada pelos posseiros para fins de reforma agrária.
A desapropriação de parte da região sairia no ano seguinte. Ela não significou uma vitória definitiva daqueles moradores, mas a pressão e o protesto exercido sobre as autoridades políticas demonstraram que esse era o caminho a ser seguido. O que foi feito nas décadas que se seguiram.
O conteúdo que você acabou de ler faz parte do Lembranças: Rio das Pedras, um projeto da Agência Lume que busca registar e disponibilizar a memória da Favela de Rio das Pedras. Para isso nossa equipe está entrevistando diversos moradores e ex-moradores que viveram na região entre os anos de 1940 e 1990.
Para construir esta reportagem nós contamos com o apoio dos seguintes voluntários Hérika Freire, Leonardo Soares, Lucas Barros e Wellington Melo.
Se você também fez parte dessa história e quer nos ajudar, entre em contato com a nossa equipe através do WhatsApp: (21) 99783-6904.



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