Professores transformam a inclusão em realidade no Colégio CAIC Euclides da Cunha
- Fernanda Calé
- há 7 horas
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Localizada em de Rio das Pedras, a escola utiliza estratégias de articulação pedagógica e acolhimento familiar para garantir a autonomia de estudantes com deficiência, transtornos e altas habilidades.
No Colégio Estadual CAIC Euclides da Cunha, a educação especial é conduzida por um grupo de profissionais que enxerga além das limitações diagnósticas para focar nas potencialidades de cada estudante. A equipe da Agência Lume foi até a unidade para conhecer a Equipe de Inclusão da escola, composta por professores articuladores, que trabalham para garantir que o aprendizado seja um direito acessível a todos.
Os profissionais atuam como elo fundamental entre os alunos com deficiência, transtornos ou altas habilidades e o ensino regular, promovendo não apenas a permanência escolar, mas uma participação plena e autônoma. O trabalho desenvolvido pela equipe se fundamenta na figura do Professor Articulador Pedagógico da Educação Especial (PAPEE), cuja função é colaborativa para auxiliar os estudantes sem gerar dependência. A professora Lorrayne Tavares destaca a profundidade dessa função:
"Esse cargo veio para mim como uma espécie de aprendizado, eu acho que estar nesse cargo é aprender um pouco todos os dias (...) refletir sobre essa prática é se colocar no lugar do aluno o tempo todo". Para ela, o desafio diário é garantir que o conteúdo passado em sala de aula seja, de fato, significativo para a trajetória de vida do estudante.
Longe de reforçar o capacitismo, os docentes buscam auxiliar os estudantes sem gerar dependência, trabalhando em conjunto com os professores regentes para adaptar conteúdos e estratégias de ensino. O objetivo da equipe é transformar o colégio CAIC Euclides da Cunha em uma referência estadual em inclusão por meio de práticas que valorizem a singularidade de cada trajetória escolar, utilizando desde planos de intervenção individualizados (PEI) até tecnologias assistivas.
A equipe realiza entrevistas com os responsáveis e com os alunos assim que chegam a unidade, e desenvolve o “Inventário de Habilidades”, para que seja possível nivelar cada aluno de acordo com a sua necessidade individual. Outra iniciativa adotada é o "Carômetro Digital", uma ferramenta de visibilidade que apresenta fotos e informações detalhadas dos alunos da inclusão para todo o corpo docente. O recurso é apresentado nos Conselhos de Classe para que os professores regentes reconheçam e acolham os estudantes, humanizando o processo pedagógico e fortalecendo o sentimento de pertencimento dentro da comunidade escolar.
Além disso, os profissionais também organizam eventos como o "Café com Acolhimento" e o "Encontro das Famílias Atípicas", que buscam fortalecer o vínculo emocional entre a escola e os responsáveis, oferecendo suporte psicológico e escuta ativa.
O processo avaliativo também é uma prioridade da equipe, que desenvolve os "Provões Trimestrais Adaptados" e versões acessíveis de competições nacionais, como a OBMEP Adaptada.
“Nós fazemos as provas adaptadas em conjunto, usando o Google Drive e a equipe toda participa dessa confecção, e de acordo com as áreas de conhecimento de cada um. Alguns professores referentes enviam as provas já adaptadas, quando isso não ocorre, cabe a equipe adaptar as provas regulares segundo o nível de suporte da demanda do aluno.”, explica Karla Costa, professora mediadora que faz parte da equipe de inclusão da unidade escolar.

Ao classificar os alunos em três níveis de suporte, desde os letrados até os não letrados, os profissionais conseguem elaborar provas que respeitam o ritmo e a forma de aprender de cada um, garantindo que a avaliação seja um instrumento de inclusão e não de exclusão. Todo esse progresso é registrado em portfólios individuais, que documentam cada pequena vitória acadêmica e socioemocional conquistada ao longo dos anos.
Os resultados desse esforço coletivo são visíveis em relatos como o de Aline Gonçalves de Jesus, mãe de Victor Gonçalves, um aluno de 16 anos com diagnóstico de autismo e TDAH que está na escola há dois anos. Aline descreve que, após passar por um momento mais desafiador devido a falta de mediadores e estrutura em anos anteriores, Victor encontrou no CAIC uma estrutura que lhe devolveu a confiança. Segundo ela, o filho hoje se sente seguro para frequentar as aulas e participar das avaliações, desenvolvendo uma independência que o permite sonhar com uma faculdade, "Ele tem vontade de trabalhar ele gosta muito da área de informática, que é a área que ele quer entrar, eu até já inscrevi ele num curso para ele iniciar". Esse sentimento de segurança é fruto direto da estrutura de apoio oferecida na sala de recursos e do acompanhamento próximo da equipe de articuladores.
Outro exemplo é o Alison Lima de Carvalho, de 18 anos, que tem diagnóstico de autismo, TDAH e deficiência intelectual. Sua mãe, Maria Ivaneide de Souza Lima, expressa profunda gratidão pelo trabalho da equipe, mencionando especificamente a professora Marluce como seu “braço direito”. Ela conta que, antes, o filho se sentia constrangido e faltava muito às aulas, mas que hoje o cenário mudou completamente:
"Hoje ele conversa mais, ele fala mais da escola, ele fala que gosta de vir para escola". Para Neide, a presença de uma profissional dedicada foi o que deu a ela a segurança de deixar o filho seguir em busca de sua independência.
Mas apesar dos avanços e do carinho demonstrado pelos profissionais, a realidade estrutural ainda impõe limites ao desenvolvimento dos estudantes. Maria Ivaneide critica a carência de pessoal especializado que sobrecarrega os professores: "O que eu poderia mesmo exigir mais assim era mais acompanhante, sabe? Para essas crianças que têm autismo. Uma pessoa que tivesse ali do lado deles para poder ajudar". Ela reforça que esses profissionais são essenciais para evitar que os alunos se sintam julgados ou desamparados durante as atividades.
A falta de mediadores e de materiais básicos, como abafadores de ruído, impede que alguns alunos com maior nível de suporte frequentem a sala de aula comum em tempo integral. Em casos mais graves, a ausência de um cuidador obriga os responsáveis a permanecerem no pátio da escola para caso o aluno precise de auxílio básico.
A falta de pessoal, limita o potencial de desenvolvimento de alunos com maior nível de suporte. Nós perguntamos a Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro (SEEDUC), se o órgão possui um planejamento para a contratação de novos profissionais mediadores, sobre quais são os critérios utilizados para dimensionar o número de mediadores por unidade escolar e se existe um cronograma previsto para alocação desses profissionais no Colégio CAIC Euclides da Cunha.
A Secretaria de Estado de Educação do Rio de Janeiro, informou que existe um planejamento para a contratação de profissionais de apoio escolar cuja previsão é para o segundo semestre de 2026. Segundo a Seeduc, para realizar o atendimento aos estudantes público-alvo da Educação Especial o critério utilizado é a avaliação pedagógica por meio do estudo de caso, e que havendo a identificação da necessidade desse atendimento por profissional de apoio escolar, a escola solicita os profissionais através de processo administrativo.
Veja a nota completa enviada pelo órgão:
“A Secretaria de Estado de Educação possui planejamento para contratação de profissionais de apoio escolar, em consonância com o Decreto 12.686/2025, estando em tramitação processo administrativo com fins à licitação para contratação desses profissionais e cuja previsão de atendimento é para o segundo semestre de 2026.
Esclarecemos que para atendimento aos estudantes público-alvo da Educação Especial o critério utilizado é a avaliação pedagógica por meio do estudo de caso. Havendo a identificação da necessidade desse atendimento por profissional de apoio escolar, a escola solicita os profissionais através de processo administrativo.
Vale destacar que o Núcleo de Apoio Pedagógico Especializado (NAPES) orienta as equipes diretivas e pedagógicas das unidades escolares quanto às estratégias a serem utilizadas, considerando as necessidades educacionais especiais e a complexidade que cada caso requer.”
Mesmo diante desses desafios estruturais, a equipe da escola mantém o foco em um futuro mais inclusivo, com a meta de atender 80% dos alunos da rede com articuladores e consolidar a escola como pólo de referência. Os professores seguem em formação contínua, muitos já pós-graduados em Educautismo, curso oferecido aos professores pela SEEDUC, além de realizarem vários cursos na plataforma de educação (LabEaD), tudo isso para oferecer o melhor atendimento possível. Como define o próprio portfólio da equipe, o trabalho realizado é a construção diária de uma "rede pública cada vez mais inclusiva, humana e transformadora", onde o afeto e a técnica caminham juntos para mudar vidas.
