• Fernanda Calé

Como obter ajuda para vencer o alcoolismo



Só no ano passado cerca 571 pacientes foram atendidos pelo sistema municipal de saúde em Jacarepaguá por uso prejudicial de álcool.

 


 

A cada dia mais jovens iniciam a vida alcoólica, muitas vezes antes de iniciar a vida adulta. Em nossa região a situação não é diferente, Jacarepaguá abriga diversas opções de lazer, principalmente nas noites, mas quando entender que o "divertimento" deu lugar a dependência?


Ao longo desta reportagem você verá trechos de alguns relatos de pessoas que precisaram pedir ajuda, e saberá como encontrar acolhimento e tratamento em Jacarepaguá. Os autores das histórias são pessoas reais moradoras de nossa região, seu nomes foram preservados. Os relatos completos poderão ser encontrados no fim da reportagem.

"Quando comecei a beber, ainda na adolescência, naquela apresentação social inocente ao álcool, tudo é muito divertido. O álcool, como todas as outras drogas, se apresenta de forma agradável, popular, inclusiva e irreverente. Até aí é inegável que muitas coisas boas acontecem nestes primeiros anos do alcoolismo. Festas, passeios, amizades, muitas conversas, mesas de bares, shows e por aí vai. Neste primeiro momento, não pude perceber que aqueles copos de bebida que me acompanhavam na diversão se tornariam o meu mais terrível algoz." - A.

O alcoolismo é descrito como a dependência do indivíduo ao álcool, considerada doença pela Organização Mundial da Saúde. O uso constante, descontrolado e progressivo de bebidas alcoólicas pode comprometer seriamente o bom funcionamento do organismo, o que pode levar o indivíduo a consequências irreversíveis.


Além dos problemas de saúde que podem ser gerados pelo uso descontrolado do álcool, diversos problemas sociais e emocionais também podem afetar o alcoólatra e as pessoas que convivem com ele.


Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, só em 2021, cerca de 571 pacientes foram atendidos no CAPS ad III Antônio Carlos Mussum em Jacarepaguá, todos chegaram ao local devido ao uso prejudicial de álcool.

"Meu nome é R... e eu sou alcoólico. Não sei se essa doença é congênita ou se foi adquirida. O que sei é que, desde que me entendo por gente, quando comecei a decidir alguma coisa, por volta dos 14 anos, o álcool esteve sempre presente na minha vida, Bebi pela primeira vez em uma comemoração e escondido dos meus pais. Bebida alcoólica não fazia parte em nenhuma hipótese para os meus familiares. Desde então, não consegui mais me abster do álcool. Primeiro às escondidas, depois abertamente e, assim, se passou a minha adolescência sem que eu tivesse aproveitado ou experimentado o que seria uma adolescência saudável." - R.

Apesar de ser amplamente aceito pela sociedade, o álcool oferece uma série de perigos, para quem consome e para as pessoas próximas. Muitos acidentes de trânsito, arruaças, comportamentos antissociais, violência doméstica, ruptura de relacionamentos, problemas no trabalho, dentre outros.


Conversar com familiares e aceitar ajuda é um corajoso e importante primeiro passo. Atualmente unidades de Atenção Primária do Município do Rio realizam trabalho de promoção em saúde com a conscientização sobre o alcoolismo, como as suas causas e complicações.


"Sou a K, uma alcoólatra anônima em recuperação. Há 1 ano e 5 dias não vou ao primeiro gole desde que conheci uma sala de AA.
Resolvi conhecer uma sala de AA pois estava com minha vida totalmente conturbada em todos os setores e a minha forma de beber estava descontrolada. Tinha ressacas horríveis e muita depressão. Como sugerido, evitei o primeiro gole e continuo voltando as reuniões todos os dias, pois a programação é só por hoje." - K.

As Clínicas da Família possuem profissionais habilitados para avaliar o paciente e o seu consumo de álcool, o que possibilita a identificação precoce de problemas relacionados à bebida. Uma vez que o paciente é diagnosticado, a Clínica da Família é capaz de iniciar o tratamento de transtornos ligados ao consumo de álcool, como a intoxicação alcoólica aguda e a síndrome de abstinência.


Nos polos de Jacarepaguá, os pacientes podem fazer tratamento com base nos serviços oferecidos no próprio local. Os usuários que permanecem com dificuldades ou que têm crises de abstinência são encaminhados para o CAPS ad III Antônio Carlos Mussum, unidade referência para tratamento de dependentes em álcool e drogas.


Os Alcoólicos Anônimos com grande atuação em diversos países também tem ajudado muitas pessoas a encontrarem a sobriedade, em Jacarepaguá existem diversos grupos que podem ser visitados:

Grupo

Endereço

Dias e horário/reuniões

Cidade de Deus

Av. José de Arimatéia, 90 - Cidade de Deus

4ª e 6ª Feira e Sábados - 19h / Domingos às 10h

Nova Vida

R. Gen. Olívio Uzeda, 231 - Igr. N.S.Saúde - Curicica

​2ª, 4ª e 6ª Feira, às 19h30

Vida Nova

R. Vila Aurora, 41 - Lg. da Preguiça

​5ª feira às 19h30, Domingo às 10h

Ao Nascer do Sol

Av. das Alagoas, 12, Igr. Sta. Luzia - Gardênia Azul

​3ª, 4ª e 5ª Feira às 19h30

Resgate

Av. Canal do Anil, 152 - Gardênia Azul

​Dom., 2ª Feira, 6ª Feira e Sábado às 19h30

Praça Seca

R. Barão, 9-7 - Praça Seca

​2ª feira às 19h

Largo do Tanque

Av. Nelson Cardoso, 205 Sl. 207/208 - Tanque

​2ª à 6ª Feira às 19h30, Sábado às 10h00 e às 19h30, Domingo às 10h e 19h

Esperança

R. Carlos Palut, 230, Merck "Assoc. Moradores"

​2ª, 4ª e 6ª Feira às 19h30

Renascer

Av. Mananciais, 1674 - 2º andar - Taquara

​2ª, 4ª Feira e Sábado às 19h30

Taquara

Est, Tindiba, 2263, Sl. 02 - Taquara

​2ª, 3ª 4ª e 5ª Feira às 18h00 e 6ª Feira, Sábado e Domingo às 10h

Para participar das reuniões é obrigatório o uso de máscara, álcool gel à disposição, distanciamento e número reduzido de presenças.


"Cheguei ao A.A. aos 59 anos enviado pelo Juizado de Violência Doméstica, por ocasião de um divórcio.
Logo na primeira reunião percebi que estava diante de algo que poderia mudar a minha vida, como realmente ocorreu, e aquilo que deveria ser um ônus, passou a ser a minha salvação como pessoa, pai, filho, pessoa..." - P

É importante estar atento aos sinais, familiares e amigos são muito importantes principalmente no aconselhamento. Se sentir que está passando por algum problema, procure ajuda, e é muito importante procurar um médico.


*Agradecemos a ajuda do AA para a construção desta reportagem, para conhecer mais sobre o trabalho da organização acesse: https://www.aa.org.br/


A seguir leia os relatos completos de alcoólicos de nossa região que encontraram ajuda e estão conseguindo vencer o vício:


A história de A:


"É inimaginável conhecer todos os processos que envolvem o alcoolismo. Quando comecei a beber, ainda na adolescência, naquela apresentação social inocente ao álcool, tudo é muito divertido. O álcool, como todas as outras drogas, se apresenta de forma agradável, popular, inclusiva e irreverente. Até aí é inegável que muitas coisas boas acontecem nestes primeiros anos do alcoolismo. Festas, passeios, amizades, muitas conversas, mesas de bares, shows e por aí vai. Neste primeiro momento, não pude perceber que aqueles copos de bebida que me acompanhavam na diversão se tornariam o meu mais terrível algoz.


O álcool é como um companheiro, um amigo que se torna sempre presente em nossos momentos mais agradáveis. O que eu desconhecia é que este amigo é na verdade um ladrão. Um ladrão vil, perverso, sorrateiro e paciente. Não tem pressa, pois tem o tempo ao seu favor. Aguarda com tranquilidade o passar dos anos, enquanto, vagarosamente destrói todas as nossas defesas, destrói nossa personalidade e até mesmo a nossa humanidade. Depois de se instalar silenciosamente como um câncer, entra em ação e gera toda e qualquer destruição possível em nossas vidas.


Minha história não é diferente de nenhuma outra pessoa que tenha percebido que tem problemas com o álcool. Sim, até mesmo perceber que existe um problema é difícil. Muitas vezes, somos assolados por verdadeiras desgraças que passam despercebidas. Nossas almas lançadas em um limbo, um lodo de dor, sofrimento e solidão que só é superado pelo levantar de copos que passa a ser cada vez mais constante. Esse entorpecimento é escravizador e permanece até o álcool nos levar ao último ato. O humilhante e desmoralizante destino final da morte.


Por um Ato do Poder Superior pude perceber a proximidade do fim e em um suspiro de esperança caminhei com as últimas forças para o Grupo Recreio de Alcoólicos Anônimos. Sem saber o que encontraria por lá, entrei na sala como se estivesse suspenso no ar, era tanto sofrimento que chorei mais do que falei. Fui acolhido, orientado, abraçado pelos companheiros que lá estavam. Um novo ar entrou em meus pulmões. Cada lágrima que derramei foi um pedaço de minha dor, dividida com os companheiros. Um grama entre as toneladas de sofrimento que eu carregava. Algo aconteceu. Um alívio. Um breve respiro. Uma nova oportunidade. Uma luz se acendeu.


Hoje entendo o AA como uma conquista, como uma etapa da luta pela vida. Antes havia vergonha, hoje orgulho. Não estou mais prostrado, ajoelhado perante um vaso sanitário. Estou em pé novamente. E assim permaneço diante dos problemas cotidianos da vida e do alcoolismo. De joelhos, apenas para agradecer ao Poder Superior por tamanha Graça. De alma lavada sigo um passo após o outro, um dia de cada vez, vivendo e deixando viver, só por hoje.


Sei que há muito trabalho para se fazer, é preciso estar atento, cuidar dos pensamentos, seguir o programa. Mas esses últimos 8 meses de sobriedade têm sido ótimos. Sei que é pouco tempo, e passou rápido. Mas já é possível colher bons frutos. É possível enxergar novamente. A vida floresce. E vejo essa Graça nos olhos dos companheiros também. Existe uma espiritualidade dentro de sala. O algo inexplicável que ocorre em toda reunião de AA.

O Milagre acontece para quem fica.

AA funciona."


A história de R:


"Meu nome é R... e eu sou alcoólico. Não sei se essa doença é congênita ou se foi adquirida. O que sei é que, desde que me entendo por gente, quando comecei a decidir alguma coisa, por volta dos 14 anos, o álcool esteve sempre presente na minha vida, Bebi pela primeira vez em uma comemoração e escondido dos meus pais. Bebida alcoólica não fazia parte em nenhuma hipótese para os meus familiares. Desde então, não consegui mais me abster do álcool. Primeiro às escondidas, depois abertamente e, assim, se passou a minha adolescência sem que eu tivesse aproveitado ou experimentado o que seria uma adolescência saudável.


Fui então para o campo de trabalho e, nesta altura, já ganhando o meu salário e podendo fazer dele (meu dinheiro) o que quisesse, o álcool se colocou em primeiro lugar. Nada disso me impediu que eu progredisse no meu trabalho, ascendesse funções maiores, até o cargo de Chefia de Departamento... engraçado que pensava naquela época que o álcool me ajudava a crescer no meu trabalho. Também quando perdi tudo, fui demitido e não conseguia mais voltar a trabalhar, ainda assim, jamais entendi que tudo isso tinha relação com a forma destrutiva que eu bebia.


Casei-me, formei família, e o álcool sempre me acompanhando, cada vez mais destruidor. Fui obrigado a me separar temporariamente (não tinha mais condições de manter a família), me afundei mais no álcool e fui recolhido várias vezes nas ruas a um hospital para desintoxicação, e mais no final, internado em um Hospital para deficientes mentais. Nunca julguei ou entendi que o álcool era o responsável por toda essa desdita.


Uma época, já quase perdendo de vez a família, ouvi falar em Alcoólicos Anônimos. Disseram-me: “lá todos os membros se reconhecem ser alcoólatras...”, e eu então cheguei a conclusão que lá não era meu lugar, pois eu não tinha NENHUM PROBLEMA com o álcool, e continuei em minha vida desajustada.


Após muitos outros “desastres” e prejuízos, inclusive uma parada cardíaca (que também não foi capaz de fazer com que eu parasse de beber) e vendo minha vida piorar a cada dia, me lembrei que alguém, há muito tempo, tinha falado sobre Alcoólicos Anônimos. Fiz um esforço gigantesco e, acho que pra fazer uma “média” com minha esposa, a convidei para irmos a uma reunião de AA.


Foi a minha salvação. Ali, naquele dia não estava bêbado, ouvi coisas interessantes que eu jamais tinha tomado conhecimento: Que alcoolismo era uma doença, que eu não tinha culpa por ser doente alcoólico, que essa doença era incurável, progressiva e fatal, e mais, que eu não era o único a sofrer dela. Que tinha outros milhões de pessoas com o mesmo problema. Entretanto, tinha uma SAÍDA. E a única SAÍDA era parar de beber. EVITAR O PRIMEIRO GOLE, pois era a partir desse primeiro gole que despertava em mim a compulsão que não permitia que eu parasse de beber depois de ingeri-lo. Me disseram que não seria fácil manter essa decisão por muito tempo, mas, que eu tomasse essa decisão a cada 24 horas, ou seja apenas por HOJE. A cada dia renovasse esse propósito. E assim eu fiz. Renovando a cada dia essa decisão de NÃO BEBER! Muito facilitada pela ajuda que os companheiros (outros alcoólicos como eu), me davam a cada reunião que eu participava e pela apresentação de um programa simples de 12 Passos pelo qual eu reformularia minhas práticas e conseguiria me afastar do álcool. E assim tem sido nestes muitos últimos anos de minha vida. Sem álcool, sem culpa, descobrindo uma nova vida a cada dia que passa.


Fundamental foi a ajuda que as reuniões no grupo me proporcionaram facilitando sobremaneira a minha decisão de não voltar a beber. Hoje sou um homem sóbrio, feliz e útil!"


A história de K:


"Olá! Sou a K. uma alcoólatra anônima em recuperação. Há 1 ano e 5 dias não vou ao primeiro gole desde que conheci uma sala de AA.

Resolvi conhecer uma sala de AA pois estava com minha vida totalmente conturbada em todos os setores e a minha forma de beber estava descontrolada. Tinha ressacas horríveis e muita depressão.


Como sugerido, evitei o primeiro gole e continuo voltando as reuniões todos os dias, pois a programação é só por hoje. De lá pra cá, além da sobriedade física do álcool, ganhei Paz!


Tenho feito boas escolhas pra minha vida e tenho cuidado mais de mim. Acreditamos na recuperação, um dia de cada vez. Utilizamos a programação, como uma ajuda mútua entre nós alcoólicos, falamos a linguagem do coração. Não temos taxas e nenhuma obrigatoriedade.


Somos livres para viver e desfrutar desse Amor genuíno que só encontrei em AA. Por isso continuo voltando, pois como dizem em sala: " O mais me será revelado". O único requisito para participar das nossas reuniões é o desejo de parar de beber, se você tem o desejo, venha nos conhecer. Será muito bem- vindo(a)."


A história de P:


"Tenho 65 anos de idade, ingressei nesta maravilhosa irmandade com 59. Sou funcionário público federal aposentado, e hoje vivo os tempos mis felizes, úteis e íntegros da minha vida.

Sou um alcóolico em recuperação, membro de Alcóolicos Anônimos e comecei a minha odisseia alcóolica com 19 anos, no dia em que dei baixa do serviço militar. Comemorando minha liberdade após o cumprimento daquele serviço à Pátria.


Mal sabia que na realidade estava inconscientemente comemorando o meu ingresso na escravidão do alcoolismo; com muitas dificuldades na vida, primogênito de uma família de sete filhos, tendo meus pais se separado quando eu tinha 15 anos, logo comecei a trabalhar em obras, fábrica, para ajudar na manutenção da família, tendo a cervejinha como um verdadeiro bálsamo para as agruras da vida.


Cheguei ao A.A. aos 59 anos enviado pelo Juizado de Violência Doméstica, por ocasião de um divórcio. Logo na primeira reunião percebi que estava diante de algo que poderia mudar a minha vida, como realmente ocorreu, e aquilo que deveria ser um ônus, passou a ser a minha salvação como pessoa, pai, filho, pessoa...


Após acidentes, brigas, perda de família, cheguei a Alcóolicos Anônimos que me restituiu a sobriedade de forma que eu nunca tivera. Hoje, aos 65 anos de idade, sou grato a esta fabulosa Irmandade e sigo vivendo uma vida íntegra, útil e feliz."

 



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